Ricardo Gasparini talvez tenha sido o eixo de equilíbrio enquanto o Ira! existia. Caladão, sempre no canto do palco, tocando seu baixo, não parecia ser daqeles que palpitavam no rumo da banda. O engano veio copletamente quando eu o entrevistei, um pouco antes da banda terminar, no ano passado.
O Ira!, aliás, foi o primeiro grupo que entrevistei, no distante ano de 2003. Até comentei com o Gaspa, quando estava na mesa de um bar, vizinho ao local onde ele, com um projeto solo junto com o Henry Paul (um cantor de rockabilly paulistano), iria tocar em São Carlos. Depois da entrevista, pensei em publicar no jornal, mas o material que eu tinha nas mãos não era simples. Tentei repassar para outros veículos. A Bizz, indicação de um amigo meu, Ricardo Schott, foi uma das procuradas, mas a revista acabou justamente naquela edição. Poucas semanas depois o grupo começou a desmoronar e hoje é quase impossível vê-los reunidos em um palco. O material permaneceu inédito por mais de um ano. E agora está logo abaixo, com a transcrição da entrevista, tal como ela foi feita.
Ressurgimento do Ira!
“Eu acho que [o ressurgimento da banda] foi mais um lance de gravadoras. O Ira! estava bem para baixo porque a gravadora que ele estava, meio que fechou as portas. A Paradoxx não tinha nada a ver, só fazia coletâneas, nunca tinha trabalhado com bandas. Já foi um esquema meio furado. Aí o Ira! foi para a Deckdisc/Abril (Sony Music). Aí a gente fez o Isso é amor, um disco de covers, que foi super bem aceito pela mídia e crítica. Aí começou essa ascensão. Foi quando pintou o disco da MTV ao vivo. Na verdade eles queriam um acústico, mas o Ira! achou melhorar fazer um ao vivo antes do acústico. Depois disso veio o Entre seus rins, que também foi um disco trablahado pela Sony. Mas no final a Deck se desligou da Sony e abandonou o disco no meio do caminho. Aí veio o convite para o Acústico”.
Turnê do Acústico e disco de inéditas
“A gente tocou muito o Acústico. Tocou a semana inteira, passava segunda e terça em casa e o resto viajando e só estrada. No final da excursão, depois de dois anos e meio, o Rick Bonadio veio rpopor que a gente fizesse um disco, que a Universal tinha contratado ele e queria fazer um disco do Ira! (isso no ano passado). Aí a gente falando que queria tirar um ano de férias e ele dizendo que a gente tinha que continuar mas a gente não tinha música nenhuma. A gente foi empurrando pra frente. Não tinha música porque era só estrada. Eu tinha algumas coisas a única minha no disco eu liguei pro Edgard e falei que ia mostrar um lance. Fiz a letra no ônibus (a música foi “Tudo de mim”). Eu fiz música com o Lino [Crizzy]. Fizemos umas três, quatro músicas, mas não entraram, o pessoal não gostou muito das letras. Agora, da parte do Edgard ou dos outros, não tinha nada”.
Invísivel DJ
“Tinha uma música que chama “No universo dos seus olhos” que era uma vinheta da 89. Falei pro Edgard que o tema era legal. Aí ele fez a música. Foi tudo meio assim. Tanto que a última música “Mariana foi pro mar”, foi uma música quando tudo estava feito. O Edgard me ligou, sabia que eu tava tocando baixão, e falou pra eu ir pro estúdio e colocar um baixo acústico. O disco foi feito assim: até a última hora foi surgindo música. No final deu um disco legal. Essa música do irmão do Edgard ["Sem saber aonde ir"], fizemos um arranjo super legal, a música ficou meio anos 80. A gente conseguiu dar uma homogeneidade”.
Produtores
“Trabalhar com os produtores só acrescentou. Com o Rick Bonadio houve um certo receio porque ele vinha daqueles programas [os reality shows]. A gente tinha uma coisa que ele era muito pop. Aí ele apareceu, super fã do Ira! e a gente foi vendo que ele deixou muito na nossa mão. Ele aparecia via a gente tocar e sumia. A gente achou que ia encher o saco, mas não, ele vinha dava os palpites certos e deixava na nossa mão. Esse disco agora foi meio assim, mas teve uma cobrança um pouco maior, porque ele fez uma ponte entre nós e a gravadora e falava que ia dar grana pra gravar três bandas. Mas ele foi super legal, aceita idéias, traz idéias. A gente curtiu. O Marcelo Sussekind foi um cara que pegou a gente no “Isso é amor”. Mas o mais legal foi no Ao vivo. Ele colocou a gente pra ensaiar no estúdio do André todo dia. Você não parava. Almoçava lá, parecia o exército, mas a gente ficou super afiado. Foi muito bom trabalhar com ele”.
André, Nasi, Edgard e Gaspa
“O Ira! não deu dinheiro, mas deu dor de cabeça. A gente teve bem, a gente teve muito mal, como Brasil, a gente deu a volta por cima. É difícil uma banda com 25 anos estar aí. Primeiro: tem uma alquimia que a gente gosta e sai. O disco Isso é amor é de covers mas parece um disco do Ira!. E agente aprendeu a conviver um com o outro. Quando é hora de um evitar o outro, já sabe como evitar (um vai em uma van, o outro pega outra). Você aprende a lidar com as coisas. A hora que você tem que dar uma chegada porque o Nasi tem que cruzr o Edgard e levar um papo. A hora que um não quer ver a cara do outro não vê. É uma briga de egos. Os quatro são meio caciques. Esse disco [Invisível DJ] saiu por minha causa e do André. Nós fizemos um meio de campo total. O Edgard e o Nasi queriam tirar dois anos de férias. Um não agüentava olhar na cara do outro”.
A (primeira) saída de Nasi
“O Nasi saiu da banda. Almoçamos em um lugar legal, em Belo Horizonte e quando entramos na van ele falou que estava fora da banda, que ia cumprir os compromissos e não tava mais a fim. Chegou no hotel o André foi no quarto do Edgard e eu subi. Ficou assim, um andando no quarto do outro. Perguntei para o Edgard o que ele queria fazer: se ele queria seguir carreira solo, ficar em trio. Aí ele me disse que eu tinha que ligar pro Nasi e perguntava e aí. Aí fazia o meio de campo do outro. Aí o André me ligou e falou pra gente gravar e ficamos nós dois gravando. A gente mostrava a demo no camarim e eles gostavam. Aí falei para o Nasi ir no estúdio e ele topou gravar. O Edgard começou a trazer as músicas. Mas as relações estavam mais do que deterioradas. A gente gravou o disco numa boa. O Nasi gravou as vozes guia e foi para a Bahia, depois gravou sozinho. A gente tá menos encanado”.
Você não sabe quem eu sou
“Esse disco teve muito eletrônico. O Edgard, depois desse disco, soube dosar [a música eletrônica]. Com esse disco a gente chegou a tomar muita latada. O disco era muito eletrônico. O Edgard vinha e falava pra mim e perguntava para que melodia, para que letra, para que música e tome latada. Depois ele soube mesclar. O Ira! nunca teve um rockabilly discarado, mas teve uma pincelada. Tem os blues do Nasi, os hip hop. Já no Psicoacústica tinha scratch. A gente traz todas as influências para o Ira!. Se a pessoa põe o ego dela acima de tudo e fala que o som que eu gosto é melhor do que o você gosta e do Ira!. Eu tocava um sintetizador. Não é um disco eletrônico do Edgard. A gente quebrou a cara. A crítica adorou, mas o público não. Foi o discou que eu mais odiei e o Nasi também. Eu fazia o baixo guia e o produtor falava que aquele baixo valeu e eu falava que eu não tinha tocado. Foi um disco muito estranho”.
O Girassol
“A vez que o Edgard cantou, na primeira versão, o Nasi ficou puto porque disse que era o cantor. Também teve quando o Rick Bonadio cheogu e disse que o Nasi ia cantar a música e o Edgard ficou puto. O Edgard quis cantar da primeira vez e o Rick Bonadio, quando chegou no Acústico, deu os palpites dele. O Nasi perguntava o que faria quando ele cantasse a música.
O fim do Ira!
“Por esses motivos o Ira! não acaba. Eu acredito em umas férias, isso já foi cogitado. Eu não sei, o futuro a Deus pertence. Do jeito que está hoje, que eu vi que o disco saiu e que todos os maus entendidos eles colocaram em pratos limpos, os dois se conversam, cada um sabe a hora de sair ou deixa de dar um passo para não pegar oe levador junto, dessa maneira dá pra se levar. É difícil acabar”.


